17 de jan. de 2026

Cafeína, Lágrimas, Risos e Repetição

Acho que a parte mais triste da vida moderna é o quão bons nos tornamos em funcionar.

Não em prosperar. Não em curar. Apenas em funcionar — silenciosamente, eficientemente, com piadas cuidadosamente guardadas no bolso como permissões. Passamos pelos nossos dias com a postura de quem sabe que não deve pedir demais. Aprendemos a sobreviver à dor de um coração partido da mesma forma que aprendemos a sobreviver a tudo: minimizando-a, rindo dela primeiro, transformando nossa dor em algo suportável.

O humor se tornou nossa saída de emergência. Seco, discreto, autoconsciente. Se fizermos a piada antes que a ferida comece a sangrar, talvez ninguém nos peça para explicá-la. Talvez nem precisemos. Há um tipo específico de exaustão que vem de ser emocionalmente articulado e ainda assim ser incompreendido. De conhecer a linguagem da cura enquanto repetimos ativamente os padrões que a exigem.

Namorar, hoje em dia, parece menos romance e mais uma série de entrevistas de desligamento. Chegamos abertos, esperançosos de maneiras pequenas e cautelosas, e passamos a maior parte do tempo avaliando quanto tempo levaremos para fingir que estamos bem com a ideia de terminar. Fazemos perguntas não para nos conhecermos melhor, mas para determinar o quanto de dano é possível. Compatibilidade se tornou sinônimo de sobrevivência.

Posso te perder sem me perder?

Posso te querer sem que isso me custe semanas de sono e meses de reconstrução?

Existe uma dor específica em perceber que você está cansado de ser corajoso. Cansado de ser resiliente. Cansado de enquadrar cada desilusão amorosa como desenvolvimento de caráter, como se a dor só fosse válida quando produzisse algo comercializável. Em algum momento, o crescimento começa a parecer um estágio não remunerado para uma vida que continua prometendo que vai melhorar assim que você aprender a lição. E a parte mais cruel é o quão convincente essa promessa soa quando você está sozinho.

Continuamos namorando porque a esperança é inconveniente assim mesmo. Porque mesmo depois de jurarmos que acabou, ainda percebemos a ternura. Ainda nos comovemos com a ideia de sermos conhecidos sem explicações. Ainda imaginamos um amor que não pareça uma corrida de obstáculos. A esperança não chega mais com estrondo. Não se anuncia com fogos de artifício ou certezas. Aparece silenciosamente, quase pedindo desculpas, perguntando se talvez — só talvez — desta vez possa ser diferente.

Então seguimos em frente. Brincamos sobre nossos problemas de confiança. Reviramos os olhos para nossa própria vulnerabilidade. Fingimos estar desapegados enquanto, secretamente, desejamos ser escolhidos deliberadamente, gentilmente, sem confusão. Sobrevivemos à melancolia do presente rindo o suficiente para nos mantermos à tona, amando em passos hesitantes, acreditando — contra nosso bom senso — que a ternura ainda é possível em um mundo que recompensa o distanciamento.

E talvez seja esse o ponto. Não que sejamos inquebráveis, mas que ainda estejamos dispostos. Ainda abertos. Ainda capazes de imaginar a alegria mesmo carregando seu oposto. Numa época que nos ensina a esperar decepções, escolher ter esperança parece quase um ato de rebeldia.

Quase engraçado.

Quase sagrado.

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