8 de jun. de 2026

Um Dia, Nós Nos Esqueceremos

Um dia,  
seu nome será brisa distante,  
um eco preso em ruas tortuosas.  
Buscarei o tom da sua risada,  
mas só encontrarei vácuo,  
não o que corta,  
apenas o que se dissolve,  
leve, como cinzas ao vento.  

Na sua rotina,  
ao segurar uma caneca,  
seus dedos vão pausar, incertos,  
como se tocassem um vazio com forma.  
Serei eu,  
ou quase eu,  
um rastro que não explica.  

Não haverá rancor,  
nem buscas em vão.  
Apenas seguiremos,  
como quem deixa pegadas na areia,  
esquecendo os quartos,  
os silêncios,  
os nós que nunca desatamos.  

Primeiro, somem os detalhes:  
o jeito que seu olhar dançava,  
o calor do seu ombro no escuro,  
o ritmo exato dos nossos passos juntos.  
Murcham,  
como flores que ninguém rega,  
até virarem pó na memória.  

Depois, as âncoras se soltam:  
o porquê do fim,  
as frases engolidas,  
os meios-termos que nunca achamos.  
Restará um vazio limpo,  
sem culpa ou peso,  
apenas o contorno do que fomos.  

Mas, quem sabe,  
em algum canto do tempo,  
você pare,  
sinta um vazio sem nome,  
e, sem entender,  
saiba que, um dia,  
quase fomos eternos.

Atenas

Não consigo evitar,
Continuo olhando para baixo,
Quando tudo está quieto,
As poças refletem a luz das guerras
Que se chocam em terras distantes.

Uma dança eterna, não tão bruxuleante,
Não tão brilhante,
Mas viva, ondula e se entrelaça,
No espelho líquido da minha solidão.

Foda-se os deuses e todo aquele brilho,
Eu tinha certeza de que conseguiria fazer tudo direito desta vez,
Mas o rosto torto no derretimento errante da neve
Revela a arrogância que insiste em permanecer,

Neste portal entre brilhos,
Entre sombras,
Entre o que é e o que parece ser.

E ainda assim, olho para baixo,
Esperando que as poças revelem
Não só guerras distantes,
Mas também o que há em mim,
Que insiste em se perder,
Entre o reflexo e a realidade.

Soneto sem Título

Enquanto o calendário vai riscando os dias,  
O dia dos namorados se aproxima veloz.  
Todos exibem carinhos, gestos, alegrias,  
E eu fico aqui sozinho — só na esperança atroz.

Nunca fui contaminado pelo vírus do amor,  
Nunca peguei essa febre de compaixão.  
Como se eu usasse luva branca de doutor  
Pra me proteger da doença da paixão.

Com o passar dos anos o desejo vai crescendo, 
As fantasias se armam, dançam na minha mente.  
Vou jogando fora a roupa de médico que eu venho tendo,  
Na esperança de que o amor, enfim, me encontre e me surpreenda.

O amor é a doença; o doente que se entrega e que deseja logo o contágio, quer sentir na pele inteira.

6 de jun. de 2026

A Dança Atada da Profundidade e da Sepultura

Até onde a respiração alcança, a vida se desdobra amplamente,
Mas as sombras seguem de perto, seus sussurros se entrelaçam.
O orbe fugaz do tempo gira, tanto refúgio quanto guia,
Cada pulso um passo mais perto da tênue linha da morte.

Agarramo-nos aos dias, embora sejam fugazes e impiedosos,
Cada amanhecer arde com uma graça emprestada e fugaz.
Mas em seu brilho, encontramos um hino sombrio,
O gêmeo de rosto luminoso da vida veste a face eterna da noite.

A alma, uma ponte das profundezas à altura infinita,
Trilha caminhos onde a dúvida e o consolo coexistem.
À medida que a morte se aproxima, ela oferece uma visão mais clara,
Revelando verdades que o ruído da vida muitas vezes negou.

Nesta valsa íntima, rival e amiga,
No abraço da morte, a vida compreende plenamente.

Sussurros de um Coração Emplumado

Minhas asas sussurram segredos para o céu,
Doces ecos pairam suavemente em minha língua.

Eu crio melodias que embalam sua tristeza,
Vibrando para trás em sonhos ainda não desvendados.

Leve como uma moeda, mas repleta de força,
Eu me elevo com serenidade,
Gentil como o último suspiro do crepúsculo,
O pulsar de um beija-flor invisível.