15 de mar. de 2026

Chá com Demônios

Despejo o chá em pulmões de porcelana, mexendo o vapor que cheira a velhas desculpas.

Lá fora, sorrio como uma placa martelada — firme, alto, inquebrável para quem passa.

Lá dentro, a cortina nunca para de tremer.

Demônios chegam educados, de casacos de inverno, contando as moedas do meu sono,
Registrando recaídas como recibos que escondo nos bolsos do arrependimento.

Puxam cadeiras sem pedir;
Conhecem minha casa melhor do que eu.

Mantenho a porta entreaberta — não para impedi-los de entrar, mas para que seu povo não veja a podridão.

Deixar alguém entrar seria como entregar-lhes uma lâmina e pedir que não a usem.

Então, pratico ser firme:
risada calculada, mandíbula cerrada, respostas curtas como um poço — uma oração ensaiada.

 A recuperação é uma liturgia lenta e suja — um hematoma de cada vez, uma pequena misericórdia, a lição insuportável de recomeçar.

Algumas manhãs sou uma cidade nova sem ruas.

Outras noites sou um mapa reduzido a cinzas.

A solidão vive entre minhas costelas,
uma inquilina que paga apenas com frio e silêncio.

Tomo chá com demônios porque é mais fácil do que explicar o divórcio da minha alma das minhas mãos.

Trocamos histórias no escuro:
promessas.

Dívidas.

Os nomes que eu costumava me chamar quando acreditava que podia desaparecer.

Não peço piedade;

só peço espaço para me reconstruir sem plateia.

Por enquanto, a chaleira canta,
E os demônios sorriem como velhos amigos que nunca partiram.
Bebemos chá para esquecer,
e bebemos para lembrar,
E quando nossas xícaras estão vazias, eu as lavo e finjo que a próxima xícara estará limpa.

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